A escassez do ouro é uma aposta geológica. Ninguém sabe quanto ainda existe debaixo da terra, e sempre que vale mais a pena cavar, cava-se mais fundo, mói-se rocha mais pobre, revira-se um rejeito antigo. A oferta responde, com alguns anos de atraso. Foi assim com o ouro, foi assim com a prata e foi assim, de forma brutal, com as conchas de cauri do módulo anterior.

O Bitcoin trocou a aposta por uma regra, e a regra é curta. Quem fecha um bloco pode criar para si uma quantidade determinada de bitcoins, e essa quantidade cai pela metade a cada 210 mil blocos, o que dá cerca de quatro anos. Começou em cinquenta. Caiu para vinte e cinco em novembro de 2012, doze e meio em julho de 2016, seis e um quarto em maio de 2020 e 3,125 em abril de 2024. A próxima queda está marcada para 2028, e não por decisão de ninguém: por contagem de blocos.

Some essa série e ela para. Cinquenta vezes 210 mil, mais vinte e cinco vezes 210 mil, e assim por diante, dá pouco menos de 21 milhões — 20.999.999,97, porque a conta é feita em números inteiros e a divisão vai truncando o resto. Por volta de 2140 a criação chega a zero e nenhum bitcoin novo nasce nunca mais. O limite não é um estoque guardado em algum lugar. É o fim de uma soma.
A unidade que existe de verdade nem é o bitcoin. É o satoshi: cada bitcoin tem cem milhões deles, e é em satoshis que a rede conta tudo. "Bitcoin" é apenas a forma de escrever números grandes de satoshis, como "quilômetro" é a forma de escrever metros. Isso responde à objeção mais comum contra um dinheiro que não pode crescer: ele não precisa crescer em unidades, porque a unidade é minúscula. Dividi-la ainda mais um dia seria possível — mas seria mudar uma regra, e mudar regras é o assunto da próxima aula.
Falta a parte que importa, e é onde esta aula responde a pergunta que o primeiro módulo deixou aberta. Aquele módulo listou as propriedades que fazem algo funcionar como dinheiro e disse que a escassez é a mais decisiva. O que ele não podia dizer é como alguém verifica uma escassez. Com ouro, você acredita em estimativas de geólogos. Com uma moeda estatal, você acredita no relatório de um banco central. Com o Bitcoin, você não acredita: você confere.
Cada nó da rede recalcula sozinho quanto o minerador tinha direito de criar naquele bloco, e recusa o bloco inteiro se o número não bater. Não é uma auditoria anual feita por uma firma contratada. É uma verificação feita por dezenas de milhares de computadores, a cada dez minutos, desde o primeiro bloco. É a mesma regra que derrubou a cadeia dos 184 bilhões de bitcoins na Aula 3, e é toda a diferença entre escassez prometida e escassez verificável.

A regra corta para os dois lados. Em dezembro de 2017, um minerador montou um bloco em que não cobrava nada: nem a criação a que tinha direito, nem as taxas das transações que incluiu. A rede aceitou o bloco sem reclamar, porque cobrar menos não quebra regra nenhuma. Aqueles bitcoins simplesmente nunca passaram a existir.
Duas críticas honestas cabem aqui. A primeira é a distribuição. Nos primeiros anos minerar custava quase nada e quase ninguém estava olhando, então uma fatia grande do total foi parar em muito pouca gente. Isso é um fato do desenho, não um detalhe. A segunda é o que acontece quando a criação acabar: a segurança da rede vai ter que ser paga só pelas taxas, e se elas vão bastar ninguém sabe. É uma pergunta legítima, discutida a sério, e faltam mais de cem anos para a resposta.

E há a objeção mais direta de todas: 21 milhões é um número arbitrário. É mesmo. Satoshi escolheu e não justificou. O que importa não é o número — é quem consegue mexer nele. Essa é a próxima aula.