Procure a sede do Bitcoin. Não existe. Não há empresa, não há conselho, não há endereço para onde mandar uma intimação e não há um botão que alguém possa apertar. Isso costuma ser repetido como slogan, e é uma descrição literal do arranjo. Só que dizer que ninguém manda não explica quem decide — e alguém decide.
O criador foi o primeiro a sair. Satoshi participou dos fóruns até o fim de 2010, entregou o acesso ao repositório a Gavin Andresen, mandou em abril de 2011 uma última mensagem dizendo que tinha seguido para outras coisas e nunca mais apareceu. Os bitcoins que ele minerou no começo continuam parados, sem um único gasto, até hoje. Quinze anos depois, a rede não sentiu falta.
Existe, sim, um programa. A maior parte da rede roda o Bitcoin Core, um software livre com um punhado de mantenedores que podem gravar mudanças no repositório. Parece um centro de poder, e seria, se instalar a atualização não fosse voluntário. Ninguém consegue empurrar uma versão nova para o seu computador. Uma regra que os nós não rodam não é uma regra: é uma sugestão dentro de um arquivo.

É por isso que o nó do usuário é a peça política da rede. Ele não vota, não assina abaixo-assinado e não manda recado. Ele faz uma coisa só: recusa o que não segue as regras que ele está rodando. Um bloco com uma transação inválida é descartado. Um bloco que cria bitcoins demais é descartado. Não importa quanto custou produzi-lo.
O minerador, que a Aula 4 mostrou queimando eletricidade em escala industrial, tem exatamente um poder: escolher quais transações entram no bloco que ele monta, e em que ordem. É um poder real, e há discussões sérias sobre censura por essa via — ele pode deixar a sua transação de fora. Mas ele não legisla. Se montar um bloco que quebra uma regra, o trabalho vira lixo e a eletricidade não volta.

A prova disso aconteceu em público, em 2017. Em maio daquele ano, cinquenta e oito empresas — corretoras, processadoras de pagamento e pools que somavam a maior parte do poder de cálculo do mundo — assinaram em Nova York um acordo para dobrar o tamanho dos blocos. De um lado estavam quase todo o dinheiro e quase toda a mineração. Do outro estavam operadores de nós, que para vencer só precisavam não instalar nada. Em novembro o acordo foi cancelado, sem nunca ter chegado a valer.

Quem discorda de verdade tem uma saída, e ela também foi usada naquele ano. Em 1º de agosto de 2017 um grupo seguiu com as suas próprias regras e criou uma rede separada, o Bitcoin Cash. Ninguém foi impedido de fazer isso, e ninguém foi obrigado a ir junto. É assim que o Bitcoin muda quando não há acordo: não convencendo um comitê, mas construindo outra estrada e vendo quem segue por ela. A mecânica dessas separações tem uma aula inteira na trilha intermediária.

Nada disso deixa o arranjo acima de crítica, e três pontos são legítimos. Meia dúzia de pools dirige a maior parte da mineração, o que concentra a escolha da ordem em pouquíssimas mãos. Quase todo mundo roda a mesma implementação, o que dá aos seus mantenedores uma influência desproporcional mesmo sem nenhum poder formal. E rodar um nó é coisa de minoria: quem não roda está confiando em quem roda, o que é bem diferente de verificar.
O resultado prático é um sistema difícil de mudar de propósito. É uma virtude quando protege uma regra que você quer manter, e um defeito quando trava uma correção que quase todo mundo quer. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo, e é esse o preço de não ter ninguém no comando.
Este módulo explicou o que a rede faz. O próximo é sobre a sua parte nela: carteira, chave, endereço, taxa — e os erros que não têm volta.