O telefone caiu na piscina. Ou foi levado no farol, ou simplesmente parou de ligar numa terça de manhã. A primeira pergunta de quem tem bitcoin nessa hora é sempre a mesma, e a resposta assusta pelo motivo errado: não, o dinheiro não estava no telefone. Ele nunca esteve.
O módulo anterior mostrou onde ele está. As moedas são saídas registradas no livro-caixa que dezenas de milhares de computadores copiam, e continuam lá, exatamente iguais, com o seu aparelho no fundo da piscina. O que o aparelho tinha era outra coisa: a autorização para movê-las.
É isso que uma carteira guarda. Não moedas — chaves. Uma chave privada é um número, e quem tem esse número consegue assinar uma transação que gasta as moedas travadas por ele. Nenhuma moeda entra ou sai do aparelho em momento nenhum. O aplicativo escreve mensagens assinadas e as entrega à rede, como o módulo anterior descreveu.

A palavra "carteira" atrapalha, então vale desmontá-la. Um aplicativo desses faz três coisas: guarda a semente de onde todas as suas chaves saem, monta e assina transações, e consulta a rede para mostrar quanto você tem. Só a primeira é insubstituível. As outras duas qualquer outro programa refaz, a qualquer hora, sem pedir licença a ninguém.
Daí sai a consequência que salva ou afunda um iniciante: perder o aparelho não é perder o dinheiro, mas perder a anotação é. Com as palavras anotadas, você instala outro aplicativo em outro telefone, digita as palavras e o saldo reaparece — porque ele nunca esteve no telefone velho. Sem elas, não existe segunda via, não existe suporte e não existe "esqueci minha senha". Essas palavras são a próxima aula.

O tamanho desse "não existe" é difícil de acreditar antes de ver um caso. Em 2013, um galês chamado James Howells jogou fora um disco rígido velho que guardava as chaves de oito mil bitcoins minerados anos antes. O disco foi para o aterro sanitário de Newport. Ele passou mais de dez anos pedindo autorização para escavar, chegou a oferecer uma fatia do resultado à prefeitura, e em janeiro de 2025 a Justiça britânica encerrou o caso. O disco continua lá. Estimativas sérias falam em algo entre três e quatro milhões de bitcoins perdidos assim: moedas visíveis no livro-caixa, que qualquer pessoa pode olhar e ninguém consegue mover.

Há uma consequência menos óbvia e bastante útil. Dá para receber com a carteira desligada. O endereço é um destino no livro-caixa, e quem paga escreve lá sem precisar falar com o seu aparelho. A chave só é necessária para gastar. Uma carteira guardada numa gaveta, sem bateria e sem internet, recebe pagamentos o ano inteiro — e é justamente isso que torna possível uma carteira feita de papel ou de metal.

No fim, as carteiras se dividem por uma pergunta só: quem tem a chave. Se é você, é custódia própria — o aplicativo no telefone, o programa no computador, o aparelhinho dedicado que assina sem nunca expor o número que guarda. Se é uma empresa, você não tem uma carteira, tem uma conta: o saldo é uma promessa dela, exatamente como o saldo bancário do primeiro módulo.
E isso não é automaticamente pior, por mais que se diga o contrário. Uma empresa devolve o acesso quando você esquece a senha, e boa parte das perdas acontece justamente com quem assumiu sozinho uma responsabilidade para a qual não estava preparado. A escolha entre as duas tem os dois lados e merece uma aula inteira: é a Aula 5.
Antes dela, o que exatamente está escrito naquela folha de papel que não pode ser perdida. Na próxima aula, as doze palavras.