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Chave privada, seed phrase e as 12 palavras

Doze palavras em inglês são a sua carteira inteira. Quem as tem, tem o dinheiro — e não existe segunda via.

Quando o aplicativo pede para anotar doze palavras numa folha, quase todo mundo entende o pedido como o "esqueci minha senha" de sempre: um jeito de voltar caso o telefone suma. A leitura está errada, e é cara. Aquelas doze palavras não recuperam a sua carteira. Elas são a sua carteira.

A aula anterior mostrou que o aparelho não guarda moedas, guarda a autorização de movê-las. Essa autorização é um número. Uma chave privada tem 256 bits, que escritos do jeito que os computadores escrevem dão sessenta e quatro caracteres embaralhados — ninguém copia isso à mão sem errar. E não é um número só: uma carteira usa uma chave diferente para cada recebimento.

O padrão que resolveu o problema tem nome e data. Em setembro de 2013, um documento chamado BIP-39 propôs traduzir o número em palavras. A lista tem 2048 palavras em inglês, escolhidas a dedo: nenhuma se confunde com outra pelas quatro primeiras letras, então uma anotação com a letra torta ainda funciona. Doze palavras dessa lista carregam 128 bits de acaso, mais um pequeno resumo de conferência. Vinte e quatro palavras carregam 256.

As doze palavras não são a senha do aplicativo. São a carteira inteira, e existem só onde você as anotar.

Dessas palavras sai uma semente, e da semente saem todas as chaves da carteira, sempre as mesmas e sempre na mesma ordem. É isso que faz uma folha de papel valer a carteira inteira: digite as palavras em qualquer aplicativo compatível, de qualquer marca, e as chaves nascem de novo idênticas, com os endereços, o histórico e o saldo. O padrão é público, então o fabricante do aparelho que quebrou não é dono de nada. Como essa derivação funciona por dentro é assunto da trilha intermediária.

Uma semente só, e dela nascem todas as chaves e todos os endereços da carteira.

A ordem faz parte do segredo. As palavras não são um conjunto, são uma sequência, e trocar a quinta pela nona dá outra carteira. Na maior parte das vezes o aplicativo recusa a digitação: aquele resumo de conferência denuncia palavra errada ou fora de lugar. Só que ele é curto: uma ordem embaralhada passa por ele mais ou menos uma vez em dezesseis, e aí não aparece erro nenhum na tela. Abre uma carteira legítima, vazia, que nunca foi sua. Anote numerado.

O outro lado dessa facilidade é o que assusta. Não há dono cadastrado, não há documento, não há pergunta de segurança. Quem digitar aquelas palavras move o dinheiro, sem provar nada a ninguém. Por isso fotografar a folha é o erro mais comum e o mais silencioso: a foto sobe sozinha para a nuvem, e a partir dali o seu dinheiro está protegido pela senha do seu e-mail.

Anotar no papel é backup. Fotografar é publicar.

E quem quer essas palavras vai atrás delas. Em julho de 2020, a fabricante de carteiras Ledger teve um banco de dados vazado com nome, telefone e endereço residencial de 272 mil clientes. No ano seguinte, algumas dessas pessoas receberam em casa uma caixa lacrada, com um aparelho parecido com o verdadeiro e uma carta explicando que era uma substituição de segurança: bastava digitar ali as doze palavras. Era falso, e tinha o endereço certo na etiqueta.

Em 2021, a caixa lacrada chegou com o nome e o endereço certos. O que ela pedia era a única coisa que ninguém pode pedir.

Daí sai a única regra que sobrevive a qualquer golpe novo: ninguém precisa das suas palavras. Nem o suporte, nem o fabricante, nem a corretora, nem o aplicativo que você já usa. Elas se digitam uma vez, quando a carteira é criada, e depois só no dia em que você mesmo a restaurar. Qualquer pedido fora disso é golpe, sem exceção e sem caso especial.

Onde anotar é uma decisão de prazo longo. Papel desbota, molha e queima, e placas de metal existem exatamente por isso. Duas cópias em dois lugares protegem contra o incêndio e contra o roubo ao mesmo tempo, e a única forma de saber que a anotação funciona é restaurá-la uma vez, antes de precisar. Existe ainda uma palavra a mais, opcional, que cria uma segunda carteira invisível a partir da mesma folha — a trilha intermediária tem um módulo inteiro sobre isso.

Com a semente anotada, a carteira já tem todas as chaves que vai usar na vida. Falta o que ela mostra para o mundo. Na próxima aula, os endereços, e por que a carteira te dá um novo toda vez que você pede.