Aperte "receber" duas vezes seguidas na mesma carteira e vão aparecer dois endereços diferentes. Todo iniciante lê isso como defeito, e alguns reinstalam o aplicativo achando que perderam o primeiro. Não perderam. A carteira está fazendo o que deve, e entender por quê muda o jeito de usar bitcoin para sempre.
Um endereço não é uma conta. A conta bancária é um cadastro: existe dentro de um banco, tem o seu nome, dura décadas e é uma só. Um endereço é um destino, calculado a partir de uma das chaves que a semente da aula anterior gerou. A carteira tem bilhões deles à disposição e entrega o próximo que ainda não foi usado cada vez que você pede. Nenhum precisa ser criado antes, e eles não acabam.

Também não há quem os emita. Ninguém aprova um endereço, nenhuma instituição o registra, e a rede não fica sabendo que ele existe até o dia em que alguém manda um pagamento para ele. Dá para gerar endereços aos milhares por segundo num computador que nunca viu internet, dentro de uma sala fechada. É o oposto exato de abrir uma conta.

Os formatos mudaram com o tempo e todos convivem. Os antigos começam com 1. Os que começam com 3 apareceram para contratos e depois para a primeira versão do SegWit. Os que começam com bc1q são o formato de 2017, escritos só em minúsculas, e os que começam com bc1p, de 2021, são de Taproot. Pagar de um formato para o outro funciona sempre; a diferença aparece no tamanho da transação e, com ele, na taxa da próxima aula.
Digitar errado não manda dinheiro para o vazio, e isso é proposital. O formato antigo já deixava de fora os caracteres que se confundem — o zero e a letra O, o i maiúsculo e o l minúsculo — e todo endereço carrega um resumo de conferência no fim. Uma letra trocada produz uma sequência que não fecha a conta, e a carteira recusa antes de enviar.
O erro que custa caro é outro, e ele não é seu. Endereço se copia e se cola, e existe vírus que fica olhando a área de transferência: no instante em que um endereço de bitcoin aparece ali, ele troca pelo endereço do atacante. Em 2017 a Kaspersky descreveu um desses, o CryptoShuffler, que tinha recolhido o equivalente a cerca de 150 mil dólares fazendo só isso, sem nunca tocar em carteira nenhuma. A defesa é chata e funciona: depois de colar, confira os primeiros e os últimos caracteres com o que o destinatário mandou. Os aparelhos dedicados existem em boa parte por causa disso — eles mostram o endereço numa telinha própria, que o vírus do computador não controla.

A parte que quase ninguém conta é o histórico. Tudo que entra e sai de um endereço fica público para sempre, e qualquer pessoa consulta em dez segundos. Em junho de 2011 o WikiLeaks publicou um endereço para receber doações em bitcoin; ele continua lá, e o mundo inteiro pode ler cada doação que ele recebeu desde então, com data e valor. Para uma campanha pública isso é ótimo.

Para você, é péssimo. Se um único endereço recebe o salário, a venda da bicicleta e o pagamento de um amigo, as três coisas ficam amarradas no mesmo ponto — e o amigo que pagou uma vez passa a ver quanto você recebe e quanto você tem. Um endereço novo a cada recebimento não é paranoia, é a única forma de não publicar o próprio extrato. A carteira faz isso sozinha, de graça, se você deixar. O que a blockchain revela sobre quem a usa, e o que se pode fazer a respeito, tem uma aula inteira na trilha intermediária.
Endereço usado não deixa de funcionar, e é bom que não deixe. Um pagamento atrasado que chegue num endereço de dois anos atrás cai na sua carteira do mesmo jeito, porque a chave dele saiu da mesma semente que todas as outras. Reusar é ruim pelo que revela, não porque quebra.
Falta a outra metade da conversa: o que acontece do lado de quem paga. Na próxima aula, a sua primeira transação — a taxa, a espera e o troco que você não pediu.