Iniciante Aula 4 4 min de leitura

Sua primeira transação: taxa, confirmação e troco

O que acontece entre apertar “enviar” e o dinheiro chegar — e por que sobra um troco que você não pediu.

A primeira transação de quase todo mundo tem um susto no meio. O aplicativo diz que você mandou uma quantia pequena, e o explorador de blocos mostra duas saídas: uma para o destinatário e outra, maior, para um endereço que você nunca viu. A conclusão é imediata e errada. Ninguém desviou nada. Aquilo é o seu troco.

Bitcoin não tem saldo. O que existe são pedaços recebidos, cada um com um valor fixo, e um pagamento gasta pedaços inteiros. É a nota de cinquenta na padaria: o pão custa sete, você não corta a nota, entrega os cinquenta e recebe quarenta e três de volta. A carteira faz o mesmo, só que o troco volta para um endereço novo dela mesma, criado exatamente para isso — daqueles que a aula anterior descreveu. O saldo que aparece na tela é a soma desses pedaços, calculada na hora.

O pagamento gasta pedaços inteiros, e o que sobra volta para a sua própria mão.

A taxa segue a mesma lógica de coisa física. Ela não é uma porcentagem do valor: é o preço do espaço que a sua transação ocupa dentro do bloco. Uma transação simples ocupa cerca de 140 bytes virtuais, e ocupa isso mandando dez reais ou dez milhões. Quem juntou muitos pedaços pequenos paga mais para gastá-los, porque cada pedaço ocupa lugar. Cobrar por tamanho, e não por valor, é o que impede a rede de punir quem manda muito.

E o espaço é leiloado. Cada bloco tem lugar para alguns milhares de transações a cada dez minutos, e quando aparece mais gente do que cabe, o minerador monta o bloco com quem ofereceu mais por byte. O resto espera. Os números desse leilão são públicos e variam de forma brutal: em dezembro de 2017 a taxa média de uma transação passou de 50 dólares, e em 20 de abril de 2024, no dia do halving, o recorde ficou acima de 100. Em semanas calmas o mesmo envio sai por alguns centavos. É por isso que o aplicativo oferece "rápido", "normal" e "econômico" em vez de um preço de tabela: ele está estimando o lance necessário, e às vezes erra.

O que você paga é pelo espaço na carroça, não pelo valor da carga.

Assinada e enviada, a transação entra na sala de espera da rede e começa a parte que ninguém controla. Não existe carimbo de aprovado. Existe profundidade: quando um bloco inclui a sua transação, ela tem uma confirmação, e cada bloco empilhado em cima dela acrescenta mais uma. Dez minutos é a média, não a promessa — pode sair em dois, pode demorar quarenta. A convenção de esperar seis confirmações para valores altos vem de uma tabela do próprio white paper, que calcula a chance de um atacante desfazer cada profundidade. Para um café, uma confirmação é mais do que suficiente, e muito comerciante aceita com zero.

Confirmação não é carimbo. É profundidade: cada bloco novo enterra o seu pagamento mais fundo.

Se a transação ficar parada porque o lance foi baixo, há duas saídas, e nenhuma delas é ligar para alguém. Dá para reenviar a mesma transação com taxa maior enquanto ela não confirmou, substituindo a anterior, e dá para quem recebeu empurrá-la gastando o próprio troco com taxa alta. As duas técnicas têm nome, sigla e uma aula inteira na trilha intermediária. O que não existe é cancelar depois de confirmada.

Esse "não existe" vale inclusive para quem tem departamento jurídico. Em 10 de setembro de 2023, a corretora Paxos mandou uma transferência de cerca de 2 mil dólares e pagou nela uma taxa de 19,8 bitcoins, mais de 500 mil dólares, por causa de uma falha no próprio sistema. Não havia estorno, nem autoridade a quem recorrer. Houve um pedido público, e a pool de mineração que ficou com o dinheiro, a F2Pool, decidiu devolver. Devolveu porque quis, e isso é o contrário de uma garantia.

Assinada e confirmada, a transação não volta. O que existe é pedir, e depender de quem recebeu.

Daí saem três hábitos que evitam quase todo prejuízo de iniciante. Mande um valor pequeno primeiro quando o endereço for novo, e o resto depois que ele chegar. Não escolha "econômico" quando a transação for urgente. E confira valor e endereço na tela antes de assinar, porque a assinatura é o último instante em que a decisão ainda é sua.

Você já sabe guardar a chave, receber e pagar. Falta a decisão que vem antes de todas elas: se essa chave fica com você ou com uma empresa. É a próxima aula.