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Mineração: como novos bitcoins nascem e por que custa energia

Mineradores não resolvem equações difíceis. Eles compram, com eletricidade, o direito de propor o próximo bloco — e é esse custo que segura a rede de pé.

Mineradores não resolvem equações matemáticas complexas. A frase está em quase toda reportagem sobre o assunto e não descreve nada do que acontece. Não há equação, não há problema a decifrar, não há nada de inteligente na tarefa. O que existe é um sorteio, e o bilhete é caro de propósito.

Funciona assim. O minerador monta um bloco candidato: escolhe transações da mempool, calcula o cabeçalho e acrescenta a ele um campo livre chamado nonce, que é só um número qualquer. Aí passa o cabeçalho inteiro pela função de hash da Aula 3 e olha o resultado. Se o número que sai for menor que um certo alvo, o bloco vale e ele o anuncia ao mundo. Se não for — e quase nunca é —, ele muda o nonce e tenta outra vez.

Não existe atalho. A função de hash foi construída para que o resultado seja imprevisível a partir da entrada, então ninguém consegue calcular qual nonce serve. Só dá para tentar. É por isso que a atividade é chamada de prova de trabalho: o bloco válido carrega, nele mesmo, a evidência de que alguém tentou um número absurdo de vezes.

Não há conta a resolver. Há tentativa após tentativa até uma delas cair abaixo do alvo.

O número é mesmo absurdo. Somadas, as máquinas do mundo inteiro fazem hoje algo em torno de um sextilhão de tentativas por segundo — um 1 seguido de vinte e um zeros. Um computador doméstico contribuiria com uma fração tão pequena que ele levaria, em média, mais tempo do que a idade do universo para achar um bloco sozinho.

Essas máquinas não são computadores comuns. São aparelhos que só sabem fazer uma coisa, empilhados aos milhares em galpões, e o que eles consomem, na prática, é eletricidade. Um galpão de mineração é um armazém quente, barulhento e chato, muito mais parecido com uma fábrica do que com um escritório de tecnologia.

Somadas, as máquinas do mundo inteiro fazem algo em torno de um sextilhão de tentativas por segundo.

Quanto mais gente tenta, mais depressa alguém acertaria — então o alvo se mexe. A rede o recalcula periodicamente para que um bloco continue saindo a cada dez minutos, em média, não importa quanta máquina esteja ligada. Dobrar a mineração não faz nascer mais bitcoin; faz o alvo apertar. O mecanismo desse ajuste é assunto da trilha intermediária.

Quem paga essa conta? Quem fecha o bloco escreve nele uma transação que cria bitcoins novos para si mesmo, e embolsa também as taxas das transações que incluiu. Em 2009 a criação era de cinquenta bitcoins por bloco; desde abril de 2024 são 3,125, e esse número cai pela metade de tempos em tempos — é o assunto da próxima aula. Não há mesada de ninguém: a recompensa é a única fonte, e é ela que paga a segurança da rede.

Porque é disso que se trata. A energia gasta não é o preço de fazer contas; é o preço de reescrever o passado. Como a aula anterior mostrou, alterar um bloco antigo obriga a refazer todos os que vieram depois — e agora dá para dizer quanto isso custa: mais poder de cálculo do que o resto do planeta somado, sustentado por horas, pagando a eletricidade o tempo todo, enquanto todo mundo continua empilhando blocos novos à sua frente. Não é impossível por matemática. É caro por física.

Reescrever o passado exige construir mais depressa do que o mundo inteiro constrói o futuro.

O ataque já aconteceu em redes menores. A Ethereum Classic, com uma fração do poder de cálculo do Bitcoin, foi atacada dessa forma em janeiro de 2019 e de novo em agosto de 2020. Onde alugar poder suficiente é barato, o ataque é viável; onde não é, ele não é.

A crítica ambiental é legítima e merece números honestos. Estimativas sérias colocam o consumo anual da rede na casa de 150 a 180 terawatt-hora, perto do que consome um país como a Polônia. Boa parte dessa energia ainda vem de combustível fóssil. Por outro lado, o minerador é um comprador que pode se instalar em qualquer lugar e desligar a qualquer hora, o que o empurra para a energia que ninguém mais está usando: gás que seria queimado na boca do poço, hidrelétrica longe demais do consumo, excedente de madrugada. O debate é real e continua aberto.

O minerador vai atrás da energia que ninguém mais está usando: gás que seria queimado ali mesmo.

Falta o número que a recompensa persegue. Na próxima aula, os 21 milhões e o corte pela metade a cada quatro anos.