O Bitcoin não nasceu de uma discussão acadêmica. Ele nasceu no meio de um incêndio, e o incêndio tem nome e data.
A história começa nos Estados Unidos, com juros baixos e crédito imobiliário fácil. Financiar uma casa ficou tão barato que a demanda explodiu e os preços passaram anos subindo. Enquanto sobem, todo mundo parece certo: quem comprou lucra, quem emprestou tem uma garantia que se valoriza sozinha e quem duvida parece pessimista. Foi nesse clima que se popularizaram os empréstimos subprime, concedidos a tomadores com pouca ou nenhuma capacidade comprovada de pagar, muitas vezes com parcelas baixas nos primeiros anos e um salto adiante.
O segundo ingrediente foi o embrulho. Em vez de guardar esses empréstimos, os bancos os juntavam aos milhares e vendiam o pacote como um título, com direito ao fluxo de pagamentos das famílias. Pacotes eram cortados em fatias, fatias eram reempacotadas em novos pacotes, e no fim da cadeia estava um papel que quase ninguém conseguia realmente analisar. Agências de classificação de risco carimbaram boa parte dessa montanha com a nota máxima. Fundos de pensão, prefeituras e bancos do mundo inteiro compraram.
O terceiro ingrediente foi a alavancagem. Instituições operavam com uma fração mínima de capital próprio para cada real de exposição, o que multiplica o lucro enquanto os preços sobem e destrói a instituição em uma queda pequena.
Em 2006 e 2007 os preços dos imóveis pararam de subir e começaram a cair. As parcelas subiram, a inadimplência subiu junto, e os títulos lastreados nessas hipotecas viraram papéis sem preço — não porque valessem pouco, mas porque ninguém sabia dizer o que havia dentro deles. Em setembro de 2008, o Lehman Brothers, um banco de investimentos com mais de 150 anos, pediu concordata. O crédito entre bancos travou: nenhum deles sabia qual dos outros estava insolvente, então todos pararam de emprestar entre si.
A resposta veio do Estado. Bancos e seguradoras considerados grandes demais para quebrar foram socorridos com dinheiro público, em programas de centenas de bilhões de dólares, e os bancos centrais passaram anos comprando ativos e expandindo balanço para sustentar o sistema. A justificativa — evitar um colapso ainda maior — é defensável e continua sendo debatida. Mas o resultado prático foi difícil de engolir para quem estava de fora: milhões de famílias perderam casa e emprego, enquanto instituições que haviam assumido os riscos foram mantidas de pé com dinheiro de todos, e quem guardava poupança pagou a conta pela via da moeda.
É nesse cenário que aparece o documento. Em 31 de outubro de 2008, cinco semanas depois da quebra do Lehman, alguém sob o nome de Satoshi Nakamoto publicou em uma lista de discussão de criptografia um trabalho de nove páginas: "Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System". A primeira linha do resumo propõe uma versão de dinheiro eletrônico que permita pagamentos diretos de uma parte a outra sem passar por uma instituição financeira.
Em 3 de janeiro de 2009, o primeiro bloco da rede foi criado. Dentro dele, em um campo que aceita texto livre, Satoshi gravou uma frase: "The Times 03/Jan/2009 Chancellor on brink of second bailout for banks" — a manchete do jornal britânico The Times daquele dia, sobre o ministro das finanças à beira de um segundo socorro aos bancos.
Aquela frase cumpre duas funções. Uma é técnica: prova que o bloco não foi criado antes daquela data. A outra é declaração de intenção, e não deixa margem para dúvida sobre o que estava sendo proposto e contra o quê.
Vale ser preciso sobre o que o Bitcoin é e o que ele não é. Ele não é um plano de governo, nem uma promessa de enriquecer, nem uma solução para tudo o que estava errado em 2008. Ele é uma proposta técnica para uma pergunta específica, que este módulo inteiro vinha construindo: é possível ter um dinheiro que seja escasso de forma verificável, que qualquer pessoa possa usar sem pedir permissão, e cujas regras ninguém consiga mudar unilateralmente?
A resposta a essa pergunta — como ela funciona, por que funciona e onde ela ainda esbarra — é o assunto do próximo módulo.