O documento que fundou o Bitcoin não teve lançamento, palco nem plateia. Foi um e-mail. Em 31 de outubro de 2008, alguém assinando Satoshi Nakamoto mandou nove páginas para uma lista de discussão de criptografia, com um endereço de e-mail gratuito no cabeçalho. Uma das primeiras respostas foi de um cético dizendo que aquilo não ia escalar.

Vale ler o que está lá, porque boa parte do que se diz hoje não está. O título é "Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System" — um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto. Não investimento, não reserva de valor, não ouro digital. A primeira frase do resumo propõe uma versão de dinheiro eletrônico que permita enviar pagamentos diretamente de uma parte para outra, sem passar por uma instituição financeira. É uma frase técnica sobre uma limitação técnica.
A primeira página é mais justa com o sistema atual do que a maioria dos textos sobre Bitcoin. Ela reconhece que o modelo baseado em confiança funciona bem o bastante para a maior parte das transações, e então lista o preço: pagamento nenhum é de fato irreversível, porque a instituição precisa mediar disputas, e uma certa porcentagem de fraude é aceita como inevitável.
O problema é específico. Um arquivo digital pode ser copiado, e é isso que impede um arquivo de ser dinheiro. Se eu mando um número que representa dez reais, nada me impede de mandar o mesmo número para outras cinco pessoas no mesmo minuto. Todas recebem a mesma coisa. Isso é o gasto duplo.

A solução conhecida era um registro central, e o documento a descreve pelo nome antigo: a casa da moeda. Cada moeda volta para lá depois de cada transação e é reemitida; só o que sai de lá é confiável. Funciona — e devolve ao arranjo exatamente o intermediário de que se queria escapar: o destino do sistema inteiro passa a depender da empresa que opera o balcão. É a conclusão do módulo anterior chegando por outro caminho.

Satoshi não foi o primeiro a tentar. As oito referências do documento são quase todas anteriores: o b-money de Wei Dai, de 1998; o Hashcash de Adam Back, que já usava prova de trabalho para encarecer o envio de spam; o trabalho de Haber e Stornetta, de 1991, sobre como carimbar a data de um documento; e um livro de probabilidade de 1957. As peças estavam na mesa havia mais de dez anos. Faltava o encaixe.
O encaixe cabe em uma frase: se o problema é saber qual pagamento veio primeiro, publique a ordem. Não a identidade de quem pagou, não o saldo de ninguém — a ordem. Toda transação é anunciada publicamente, e a rede concorda sobre uma única história da sequência em que elas chegaram. A segunda tentativa de gastar a mesma moeda deixa de precisar de árbitro porque ela é, visivelmente, a segunda.
Falta a parte cara, e o documento não a esconde: se escrever nesse registro fosse de graça, qualquer um poderia reescrevê-lo. A resposta é a prova de trabalho — escrever custa, e reescrever o passado custa refazer tudo o que foi feito desde então. É o assunto da Aula 4.
Uma definição vale guardar: uma moeda eletrônica é uma cadeia de assinaturas digitais. Cada dono a transfere ao seguinte assinando o hash da transação anterior junto com a chave pública de quem recebe. Não existe um objeto "bitcoin" em lugar nenhum — existe uma corrente de autorizações que qualquer pessoa pode conferir até a origem.

Repare no que o texto não faz. Não fala em preço, não promete valorização e não afirma que vai dar certo. A seção 11 se chama "Cálculos" e é a probabilidade de a própria ideia falhar. E o documento é preciso até sobre o que um ataque bem-sucedido conseguiria: nem criar valor do nada, nem tomar dinheiro que nunca foi dele, apenas desfazer um pagamento que ele mesmo acabou de fazer. A palavra "blockchain" não aparece nenhuma vez nas nove páginas, nem junta nem separada.
Na próxima aula, essa solução em movimento: uma volta completa, de alguém apertando "enviar" até o pagamento virar definitivo.