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Como o Bitcoin funciona, do começo ao fim

Uma volta completa em uma aula: alguém paga, a rede recebe, um bloco fecha — e o pagamento vira definitivo sem que ninguém tenha aprovado nada.

Ninguém manda um bitcoin para ninguém. Nada sai do seu telefone e chega no telefone do outro, nenhum arquivo atravessa a internet carregando valor dentro. O que atravessa é um anúncio: uma mensagem curta dizendo que certas moedas, que até agora só podiam ser movidas por quem tem uma chave, passam a só poder ser movidas por quem tiver outra. Todo o resto é a rede concordando com esse anúncio.

Sábado de manhã, uma padaria aceita bitcoin. O valor da compra aparece na tela da maquininha como um quadriculado preto e branco. Você aponta a câmera do telefone e o aplicativo lê dali duas informações: um destino e uma quantia. Nenhum nome, nenhum documento, nenhuma instituição no meio.

Um destino e uma quantia. Nenhum nome, nenhum documento, nenhuma instituição no meio.

A carteira monta a transação. Ela olha as moedas que você já recebeu antes — pedaços, cada um com um tamanho próprio, e não um saldo único como no extrato do banco — e escolhe quais usar. Se o pedaço escolhido for maior que a compra, ela cria uma segunda saída devolvendo a diferença para você mesmo. É o troco, e ele existe porque não dá para partir um pedaço ao meio sem gastá-lo inteiro. Esse detalhe tem um módulo inteiro reservado mais adiante.

Falta autorizar. A carteira assina a transação com a sua chave privada, que não sai do aparelho em momento nenhum. A assinatura não revela a chave; ela prova, para quem quiser conferir, que quem escreveu aquela mensagem tinha a chave capaz de mover aquelas moedas. É a cadeia de assinaturas da Aula 1 ganhando mais um elo.

Aí a mensagem sai. Não para um servidor do Bitcoin, porque não existe um. Seu aplicativo entrega a transação a alguns computadores que participam da rede, e cada um deles faz a mesma coisa: confere se a assinatura bate, se as moedas existem e se ainda não foram gastas, e, estando tudo certo, repassa aos vizinhos. Em poucos segundos a transação está em dezenas de milhares de máquinas espalhadas pelo mundo. Nenhuma delas pediu autorização a ninguém para aceitá-la.

Cada computador confere a transação e a repassa aos vizinhos. Em segundos ela está no mundo inteiro.

Agora ela espera. Cada uma dessas máquinas guarda as transações válidas que ainda não entraram em bloco nenhum numa sala de espera chamada mempool. Não é uma fila por ordem de chegada. Quem monta o próximo bloco escolhe o que vai dentro, e escolhe pelo que paga melhor por espaço — a taxa. Pagar pouco em um dia movimentado é ficar esperando; pagar bem é entrar no próximo bloco. É um leilão, e você deu o seu lance quando apertou "enviar".

Não é fila por ordem de chegada. Quem monta o próximo bloco escolhe pelo que paga melhor por espaço.

A cada dez minutos, em média, um minerador em algum lugar do mundo consegue fechar um bloco: um pacote com alguns milhares de transações e um carimbo que custou caro para produzir. Se a sua estava entre elas, ela deixou a sala de espera e entrou no registro. O minerador não decidiu que o seu pagamento é válido — ele decidiu apenas a ordem. Validade quem decide é cada computador que recebe o bloco e o confere inteiro, transação por transação, antes de aceitá-lo. Um bloco com uma transação inválida é recusado, e todo o trabalho de quem o montou vira lixo.

O pagamento tem agora uma confirmação. Daí em diante, cada bloco empilhado em cima é mais uma. Não existe carimbo de "definitivo": existe profundidade. Desfazer um pagamento com uma confirmação exigiria refazer um bloco; desfazer um com seis exigiria refazer seis, e mais depressa do que o resto do mundo constrói os próximos. É por isso que uma casa esperaria algumas confirmações e o pão sai do balcão na hora — o padeiro está correndo um risco de centavos, e ele sabe disso.

Não existe carimbo de definitivo. Existe profundidade: cada bloco empilhado em cima é mais uma confirmação.

Repare no que não aconteceu nessa volta inteira. Ninguém aprovou. Nenhuma empresa poderia ter recusado o pagamento por ser sábado, por ser para o exterior ou por não gostar de quem recebe. E ninguém pode desfazê-lo depois, o que corta para os dois lados: não há estorno, não há suporte, e um destino digitado errado não tem volta.

Na próxima aula, o registro onde esse bloco foi parar: como uma lista de blocos encadeados torna caro reescrever o passado, e por que tanta gente guarda uma cópia dela.