O Bitcoin não é anônimo. Ele é quase o oposto disso: um registro público, permanente e legível por qualquer pessoa do planeta, contendo todas as transações que já aconteceram desde 2009. Governos, empresas e curiosos leem esse registro o tempo todo, e nenhum deles precisa de autorização para isso.
O que ele oferece é pseudonimato. Em vez do seu nome, aparecem endereços. Enquanto ninguém souber que um endereço é seu, ele é apenas uma sequência de caracteres. O problema é que basta um único vínculo entre um endereço e uma pessoa para que a cor escorra por tudo que está ligado a ele — para frente e para trás, desde sempre.

Os vínculos se descobrem por heurísticas, e três delas dão conta da maior parte do trabalho. A primeira é a das entradas comuns: se uma transação gasta cinco pedaços de uma vez, presume-se que os cinco pertenciam à mesma pessoa, porque foi preciso ter as cinco chaves para assinar. É por isso que consolidar UTXOs, como a aula sobre transações mencionou, entrega de graça uma lista de tudo que é seu.

A segunda é a identificação do troco. Numa transação com duas saídas, a que tem valor redondo costuma ser o pagamento e a outra o troco; a que usa o mesmo formato de endereço das entradas costuma ser o troco; a que é gasta minutos depois junto com outros pedaços seus, também. Nenhuma dessas pistas é certeza, e juntas elas acertam quase sempre.
A terceira é a mais simples e a mais comum: reusar endereços. Todo pagamento recebido no mesmo endereço vira uma linha do mesmo extrato, aberto ao público. A trilha iniciante já pedia um endereço novo a cada recebimento, e este é o motivo por extenso.
O ponto em que isso deixa de ser teoria é o cadastro. Quando você compra numa corretora que exige documentos, aquele endereço passa a ter um nome verdadeiro colado nele, num banco de dados que existe. Empresas de análise de cadeia — a Chainalysis foi fundada em 2014, e não está sozinha — vendem exatamente esse trabalho para governos e instituições financeiras.
E o registro não esquece. Em 2012 e 2013, alguém desviou 69.370 bitcoins do mercado Silk Road. As moedas ficaram paradas por sete anos. Em novembro de 2020, o governo americano localizou a pessoa e apreendeu tudo, refazendo o caminho na blockchain com calma, muito tempo depois de qualquer rastro convencional ter desaparecido. Numa contabilidade pública e eterna, o tempo trabalha para quem investiga.
O que ajuda de verdade é uma lista curta. Um endereço novo a cada recebimento. Não misturar, numa mesma transação, moedas que vieram de origens que você não quer ligar. Rodar o próprio nó, para não entregar a lista dos seus endereços a um servidor alheio. Usar Lightning para pagamentos pequenos, que assim não entram na blockchain. E, para quem precisa de mais, o coinjoin: várias pessoas montam juntas uma transação com saídas de valor idêntico, de modo que a heurística das entradas comuns passa a apontar para um grupo em vez de uma pessoa.

Sobre o coinjoin, é preciso ser factual: ele é terreno juridicamente disputado. Em abril de 2024, os fundadores do Samourai Wallet foram presos nos Estados Unidos sob acusação de operar transmissão de dinheiro sem licença, e outra carteira conhecida encerrou o serviço para americanos na mesma semana. As regras variam por país e mudam.
Também vale nomear o que é teatro. Passar as moedas por uma corretora não apaga nada — apenas transfere o registro para o banco de dados dela. Fazer um coinjoin e no dia seguinte consolidar tudo num endereço só desfaz o trabalho inteiro. E nenhuma configuração de rede resolve um problema que está escrito na blockchain.
Por fim, a justiça manda reconhecer o outro lado: a mesma transparência que expõe você é o que permite a qualquer pessoa auditar a emissão, conferir a reserva de uma empresa e provar uma fraude sem pedir licença. Privacidade, aqui, é trabalho — e é trabalho porque a verificação é pública.
Foi essa mesma abertura que permitiu, a partir de 2023, que gente começasse a gravar imagens e textos dentro das transações, reacendendo a pergunta mais antiga da rede: para que ela existe? Na próxima aula, os ordinals.