Intermediário Aula 5 4 min de leitura

Ordinals, tokens e o que cabe (ou não) na rede

Dados arbitrários dentro de transações levantaram a pergunta mais antiga do Bitcoin: para que essa rede existe?

Em janeiro de 2023, um desenvolvedor chamado Casey Rodarmor publicou um programa que fazia uma coisa aparentemente inofensiva: numerava cada satoshi na ordem em que foi minerado e permitia anexar um arquivo a um deles. Em poucas semanas, imagens, textos e até jogos inteiros estavam gravados dentro de blocos do Bitcoin, as taxas dispararam, e a rede se dividiu numa discussão que não terminou até hoje.

O mecanismo é engenhoso e vale ser entendido antes de ser julgado. O Taproot, da aula anterior, permite revelar um galho de script na hora de gastar. Esse conteúdo revelado conta como testemunha, a área que o SegWit criou e que ocupa um espaço mais barato no bloco. Uma inscrição esconde o arquivo dentro de um trecho de script que nunca é executado — e a rede o carrega, replica e guarda para sempre.

Um espaço criado para outra coisa vira porão de carga assim que alguém percebe que cabe.

O efeito foi imediato e mensurável. Em maio de 2023 a mempool acumulou centenas de milhares de transações e as taxas de um pagamento comum subiram a dezenas de dólares. No bloco 840.000, o do halving de abril de 2024, os mineradores recolheram mais de 37 bitcoins em taxas, quase o dobro da recompensa de emissão. Para quem minera, foi uma boa notícia. Para quem queria mandar dinheiro naquela tarde, não.

Daí nasceram os dois campos, e os dois têm argumentos que merecem ser ouvidos.

De um lado: as regras não distinguem tipos de dado, e nem deveriam. Quem paga a taxa compra o espaço, ponto. Filtrar conteúdo exigiria alguém decidindo o que é uso legítimo, e é exatamente esse alguém que a rede foi construída para não ter. Além disso, taxas altas são a receita que substituirá a emissão quando ela acabar — e é bom descobrir cedo se existe demanda que pague por segurança.

Do outro: a rede foi feita para transferir valor, e o espaço em bloco é um bem comum escasso. Cada imagem gravada é carregada para sempre por milhares de nós no mundo inteiro, encarecendo rodar um deles e empurrando exatamente na direção que a guerra dos blocos tentou evitar. E há quem note que a testemunha barata foi criada para assinaturas, não para arquivos: usá-la assim é explorar um preço que não foi pensado para esse fim.

Todo mundo paga pelo caminho, e ele pertence a quem passa por ele.

A briga também apareceu no código. Alguns operadores de nó passaram a usar filtros que recusam repassar transações desse tipo; outros argumentam que filtros não funcionam, porque o minerador pode receber a transação diretamente e incluí-la de qualquer jeito — o que de fato acontece. Em 2025 a discussão chegou até os limites do campo de dados livre do OP_RETURN, com propostas e reversões. Nenhum lado ganhou de forma limpa.

Vale registrar que esse debate é mais velho que os ordinals. Em 2010 já se discutia gravar mensagens em transações; o próprio OP_RETURN foi criado em 2014 justamente para oferecer um lugar barato e descartável a quem quisesse gravar dados, evitando que fizessem coisa pior. A pergunta de fundo — o Bitcoin é dinheiro, ou é um espaço público para o que pagar por ele? — é praticamente contemporânea do bloco gênese.

Criaram o mural justamente para que ninguém pregasse cartaz na parede.

O que a história mostra é como a rede resolve esse tipo de coisa: mal, devagar e sem autoridade. Ninguém pode proibir, ninguém pode obrigar, e o resultado emerge do que milhares de operadores independentes decidem rodar. É lento e desconfortável, e é a mesma propriedade que impede que alguém censure o seu pagamento.

Você chegou ao fim da trilha intermediária. Sabe o que uma chave é, como uma carteira a organiza, como a rede valida e o que existe em cima dela. O que vem agora é a matemática por baixo de tudo isso, com as contas na mesa: corpos finitos, a curva secp256k1, o cálculo completo de uma assinatura e o ponto exato em que ela quebra. É o começo da trilha avançada.