Em maio de 2017, num hotel em Nova York, representantes de 58 empresas assinaram um acordo para mudar o Bitcoin. Entre eles estavam mineradores que somavam mais de 80% do poder de cálculo da rede e corretoras que respondiam pela maior parte do volume negociado do mundo. O acordo fracassou por completo em seis meses. Entender por que é entender onde o poder realmente mora.
Antes, a distinção técnica que organiza tudo. Uma mudança de regra pode apertar ou afrouxar. Apertar é proibir algo que antes era permitido: os nós antigos continuam aceitando os blocos novos, porque tudo que é válido pela regra nova também era válido pela antiga. Isso se chama soft fork, e ele não obriga ninguém a atualizar nada.

Afrouxar é o contrário: permitir algo que antes era proibido, como blocos maiores que o limite. Os nós antigos rejeitam esses blocos, porque para eles são inválidos. Se um grupo insiste, a rede se parte em duas, cada uma com o seu histórico até o ponto da separação e a sua vida própria a partir dali. Isso é um hard fork, e ele exige que todos atualizem — ou aceitem a divisão.
A disputa que testou isso durou de 2015 a 2017 e ficou conhecida como a guerra dos blocos. O limite de um megabyte por bloco foi posto por Satoshi em 2010 como defesa contra abuso, quase de improviso. Conforme o uso cresceu, esse limite passou a apertar, e as taxas subiram. Um lado queria aumentá-lo: pagamentos baratos na própria blockchain, disponíveis já, sem depender de camadas que ainda não existiam. O outro lado queria mantê-lo pequeno: blocos grandes encarecem rodar um nó, e uma rede que só grandes empresas conseguem verificar deixa de ser a rede que a aula anterior descreveu.
Vale registrar que o primeiro argumento não era tolo nem mal-intencionado. Taxas altas de fato expulsam os usuários pequenos, que são justamente os que mais precisam, e a alternativa prometida — as camadas — levou anos para funcionar de verdade. A discussão era legítima dos dois lados, e é por isso que foi tão amarga.

A solução técnica que venceu foi o SegWit, um soft fork engenhoso: em vez de aumentar o limite, ele tirou as assinaturas de dentro do corpo da transação e as pôs numa área separada, que passou a contar diferente. O efeito prático foi mais capacidade sem afrouxar regra nenhuma. De quebra, consertou um defeito antigo que permitia alterar o identificador de uma transação sem invalidá-la — defeito que impedia a rede Lightning de existir.
Só que a ativação dependia de sinalização dos mineradores, e eles não sinalizavam. O impasse foi rompido por um movimento de usuários: a proposta BIP-148 declarava que, a partir de 1º de agosto de 2017, os nós que a adotassem rejeitariam blocos que não sinalizassem SegWit. Não era um pedido. Era o aviso de que os blocos daqueles mineradores seriam ignorados por quem recebe pagamentos. Semanas antes do prazo, os mineradores sinalizaram.

O outro lado seguiu o seu caminho, como era seu direito. Em 1º de agosto de 2017 nasceu o Bitcoin Cash, um hard fork com blocos de oito megabytes; todo mundo que tinha bitcoin passou a ter também a moeda nova. E a segunda parte do acordo do hotel, um hard fork marcado para novembro que dobraria o tamanho do bloco, foi cancelada dias antes por falta de apoio suficiente entre os nós. Em novembro de 2018, o próprio Bitcoin Cash se dividiu de novo.
A lição atravessa o curso inteiro. Mineradores ordenam transações, empresas movem volume, desenvolvedores escrevem código — e nenhum dos três muda a regra sozinho. Quem valida é quem decide, porque o dinheiro que você aceita é o dinheiro que o seu programa considera válido.
A blockchain é pública, e essa publicidade foi o preço de não precisar confiar em ninguém. Falta medir esse preço. Na próxima aula, o que exatamente ela revela sobre você.