Em 14 de novembro de 2021, no bloco 709.632, o Bitcoin recebeu a maior atualização desde 2017 — e quase ninguém percebeu. Nenhum aplicativo quebrou, nenhuma carteira precisou ser atualizada às pressas, nenhum usuário teve que fazer coisa alguma. Foi de propósito, e a ausência de barulho é parte do que a atualização significa.
O nome é Taproot, e ele reúne três mudanças que se encaixam. A primeira é um tipo novo de assinatura, proposto pelo criptógrafo alemão Claus-Peter Schnorr ainda nos anos 1980 e patenteado por ele até 2008 — o que explica por que Satoshi não o usou. A patente expirou, o Bitcoin passou a poder usá-lo, e a diferença é uma propriedade que a assinatura antiga não tem: ela é linear.
Linear significa que assinaturas somam. Três pessoas com três chaves podem produzir uma única assinatura que confere contra a soma das três chaves públicas. Do lado de fora, o resultado é indistinguível de um pagamento comum feito por uma pessoa só. Um multisig de três entre três deixa de anunciar ao mundo que é um multisig, deixa de ocupar o espaço de três assinaturas e passa a custar como uma.

A segunda mudança é a árvore de condições. Antes, um cadeado com dez cláusulas precisava publicar as dez, mesmo que apenas uma fosse usada. Com Taproot, as condições são organizadas numa árvore de hashes — a mesma ideia da raiz de merkle — e quem gasta revela somente o galho que exerceu. As outras nove nunca aparecem na blockchain e ninguém jamais fica sabendo que existiram.

A terceira é a combinação das duas, e é a mais elegante. Todo endereço Taproot tem um caminho de chave e um caminho de script. Se todas as partes envolvidas concordarem — e no dia a dia elas concordam quase sempre —, elas assinam juntas pelo caminho de chave, e a árvore de condições inteira jamais é revelada. As cláusulas ficam guardadas para o dia em que alguém não colaborar.
O efeito sobre a privacidade é o que mais importa. Um fechamento de canal Lightning, um cofre familiar de duas entre três, uma herança com trava de tempo e um pagamento trivial de café passam a ter, na blockchain, exatamente a mesma aparência. Não é anonimato — a rede continua pública, como a aula sobre privacidade vai insistir. É a eliminação de uma etiqueta que antes vinha de graça para quem observa.

Vale comparar com 2017, e a comparação é o ponto político da aula. A disputa daquele ano foi feia porque estava em jogo quem decide o tamanho do bloco e, com ele, quem captura as taxas. O Taproot não tirava poder de ninguém: quem quisesse usar usava, quem não quisesse continuava exatamente como estava. A ativação foi feita por um método chamado Speedy Trial, uma janela de três meses em que os mineradores sinalizavam apoio, e o apoio passou de 99%. Não houve guerra porque não havia o que disputar.
E vale ser honesto sobre o resultado três anos depois. A adoção é lenta: boa parte das carteiras ainda entrega endereços que começam com bc1q, e a privacidade que o Taproot oferece só funciona de verdade quando muita gente o usa — uma multidão pequena esconde pouco. Além disso, a primeira aplicação em larga escala do novo formato não foi nenhuma das previstas: foi a gravação de imagens e textos dentro de transações, que abriu uma discussão inteira sobre para que a rede existe.
Antes de chegar a essa discussão, falta entender como o Bitcoin muda de regra sem ter quem decida. O Taproot foi o caso fácil. Houve um caso difícil, que durou dois anos, dividiu a comunidade e terminou com duas moedas. Na próxima aula, os forks.