A camada base do Bitcoin dá conta de algo perto de sete transações por segundo. As redes de cartão processam dezenas de milhares. Essa comparação aparece em toda discussão sobre o assunto e é a comparação errada — porque a camada base não foi feita para pagar cafés, e sim para liquidar acertos de forma definitiva. Pagar o café acontece em outro lugar.
Esse outro lugar se chama Lightning, e a proposta é de fevereiro de 2015, de Joseph Poon e Thaddeus Dryja. A rede entrou em funcionamento em 2018 e hoje move pagamentos em menos de um segundo, com taxas de frações de centavo.
A peça central é o canal. Duas pessoas fazem uma transação normal na blockchain que tranca uma quantia num endereço que exige as duas assinaturas — o multisig de duas entre duas que a trilha anterior explicou. A partir daí, elas trocam entre si transações assinadas que redistribuem aquele saldo, sem transmitir nenhuma delas à rede. Cada pagamento é uma versão nova do acerto, e a antiga é invalidada. Quando decidem encerrar, publicam o último estado e a blockchain registra apenas o resultado.

Repare na economia. Duas transações na blockchain — abrir e fechar — podem cobrir dez mil pagamentos entre as duas partes. O espaço em bloco, aquele recurso escasso pelo qual todo mundo disputa, é usado uma vez para toda uma relação.
Só que ninguém quer abrir um canal com cada padaria do mundo. É aí que entra o roteamento: se você tem canal com A, A tem canal com B e B tem canal com a padaria, o pagamento atravessa os três. O que impede A ou B de ficarem com o dinheiro no meio do caminho é o cadeado por segredo do Script, aquele que libera a moeda para quem revelar o dado certo. O segredo é escolhido por quem recebe, e ele só aparece quando o pagamento chega ao fim. Ou o caminho inteiro se acerta, ou nada acontece em lugar nenhum dele.

O conceito que mais confunde quem começa é a liquidez, e ele fica claro com uma imagem só. Um canal tem uma quantia total, dividida entre os dois lados. Você só consegue enviar o que está do seu lado, e só consegue receber até o limite do que está do lado do outro. Um canal recém-aberto por você tem tudo do seu lado: dá para pagar à vontade e é impossível receber um centavo. Quem vai receber pagamentos precisa de liquidez de entrada, o que significa alguém com saldo apontado na sua direção.

Vale ser honesto sobre os limites, porque entusiasmo demais atrapalha. Canais precisam ser abertos, financiados e às vezes rebalanceados. Para receber, o seu nó precisa estar acessível — ou você depende de um serviço que fique acordado por você. Rotas falham, sobretudo para valores altos, e o pagamento simplesmente não passa. E a maior parte das pessoas que usa Lightning hoje usa por meio de aplicativos que guardam as chaves, o que é conveniente e é exatamente o arranjo de custódia que a trilha iniciante descreveu — com todas as consequências.
Nada disso apaga o que a rede resolve. Em setembro de 2021, El Salvador adotou o Bitcoin como moeda de curso legal e distribuiu uma carteira Lightning à população; funcionou para pagamentos pequenos e do dia a dia, que na camada base seriam absurdos. Remessas internacionais de trabalhadores, historicamente caríssimas, passaram a custar centavos por esse caminho.
A separação em camadas não é remendo. É como o dinheiro sempre funcionou: os bancos centrais liquidam entre si em volumes grandes e poucas vezes ao dia, e a sua compra no mercado acontece numa camada acima. O Bitcoin fez o mesmo, com a diferença de que a camada de baixo não pertence a ninguém.
Uma atualização de 2021 mudou como as assinaturas funcionam, tornou contratos indistinguíveis de pagamentos comuns e abriu caminho para versões melhores de tudo isso. Na próxima aula, o Taproot.