Quase todo mundo que usa Bitcoin pergunta o próprio saldo a outra pessoa. Você abre a carteira, ela consulta um servidor, o servidor responde um número e você acredita. Na esmagadora maioria das vezes o número está certo. Mas repare no verbo: acredita. Existe uma alternativa, e ela cabe num computador comum em cima da sua mesa.
Um nó completo baixa todos os blocos desde janeiro de 2009 e confere cada um deles por conta própria. Ele verifica a assinatura de cada entrada de cada transação, confere que nenhuma moeda foi gasta duas vezes, recalcula a raiz de merkle de cada bloco, refaz o hash de cada cabeçalho contra o alvo daquele momento e confirma que a recompensa paga a cada minerador foi exatamente a permitida pela regra da emissão. São mais de um bilhão de transações auditadas uma a uma, e o resultado é um conjunto de saídas não gastas que ele construiu sozinho, sem perguntar a ninguém se está certo.

A primeira sincronização é a parte cara. São algumas centenas de gigabytes para baixar e verificar, e leva de um dia a alguns dias, dependendo da máquina e da internet. Depois disso, o nó só acompanha o que chega — poucos megabytes a cada dez minutos, e um consumo de energia parecido com o de uma lâmpada.

Uma configuração merece explicação, porque ela costuma ser mal compreendida. O programa vem com uma otimização que pula a verificação de assinaturas em blocos muito antigos, abaixo de um ponto marcado no código. Não é confiança cega: aquele ponto é o hash de um bloco que qualquer pessoa pode conferir em vinte fontes independentes, e quem quiser desligar a otimização e verificar assinatura por assinatura desde 2009 desliga com uma linha de configuração.
Se o disco for pequeno, existe a poda. O nó baixa cada bloco, verifica cada bloco e depois apaga os antigos, guardando apenas o conjunto de saídas não gastas e os blocos recentes. O mínimo cabe em menos de um gigabyte. Podar não é confiar em terceiros: é conferir e depois jogar fora o comprovante.

Na prática, o que muda para você? Três coisas. A carteira passa a perguntar ao seu nó, e a resposta deixa de depender da honestidade de uma empresa. Sua privacidade melhora bastante, porque você deixa de informar a um servidor alheio todos os endereços que possui — o que, como a aula sobre privacidade vai mostrar, é o vazamento mais comum que existe. E, principalmente, você passa a fazer valer as regras: se amanhã a maioria dos mineradores decidir criar moedas fora da emissão prevista, o seu nó rejeita esses blocos e continua na cadeia que segue as regras que você aceitou. Foi exatamente isso que decidiu a disputa de 2017, como o módulo sobre o que é Bitcoin já contou.
Vale ser honesto sobre o que rodar um nó não é. Não rende dinheiro, não é mineração e não acelera nada. Não protege você de perder a semente nem de cair num golpe. E a maioria das pessoas nunca vai rodar um, o que está tudo bem: a rede precisa que rodar seja barato e possível, não que todos rodem. O valor está em o custo ser baixo o suficiente para que a opção exista para qualquer um, em qualquer lugar, sem pedir licença.
Um computador de cem dólares e um disco resolvem. É a diferença entre ter uma opinião sobre as regras do Bitcoin e ser um dos lugares onde elas acontecem.
Com a camada base entendida por dentro, começam as perguntas que ela sozinha não responde: como pagar um café em um segundo, o que mudou com o Taproot, por que houve uma guerra de blocos e o que exatamente a blockchain revela sobre você. É o assunto do próximo módulo.