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Dificuldade: o ajuste a cada 2.016 blocos

Dobrar o poder de mineração não faz nascer mais bitcoin. Faz a dificuldade subir, e o relógio continua marcando dez minutos.

Se amanhã o dobro das máquinas do mundo fosse ligado para minerar, o Bitcoin continuaria produzindo um bloco a cada dez minutos e exatamente a mesma quantidade de moedas por dia. Mais esforço não gera mais dinheiro. Gera só mais dificuldade — e entender esse detalhe é entender por que a emissão é uma regra e não uma promessa.

O mecanismo é um termostato. A cada 2.016 blocos, o que deveria levar duas semanas exatas, cada nó da rede faz sozinho a mesma conta: quanto tempo esses 2.016 blocos realmente levaram? Se levaram menos, o alvo aperta na mesma proporção e os hashes precisam ficar menores. Se levaram mais, o alvo afrouxa. O ajuste é limitado a um fator de quatro para cada lado, para que nenhum susto muito grande jogue a rede num extremo.

Quanto mais rápido gira, mais o regulador fecha a válvula. Ninguém decide: o mecanismo decide.

Repare em quem faz esse ajuste: ninguém. Não existe um servidor que recalcula a dificuldade e avisa os mineradores. Cada nó, com os cabeçalhos que já tem, chega ao mesmo número no mesmo bloco, porque a conta é determinística e os dados são públicos. Um nó que calculasse diferente simplesmente rejeitaria os blocos dos outros e ficaria sozinho na sua própria versão da realidade.

A prova mais bonita de que isso funciona veio em 2021. Entre maio e julho daquele ano, a China proibiu a mineração no país, e algo próximo da metade do poder de cálculo da rede foi desligado ou embarcado em caminhões em poucas semanas. O efeito imediato foi previsível: com menos máquinas procurando, os blocos passaram a demorar em torno de vinte minutos.

Em 2021, metade das máquinas do mundo saiu de um país só, dentro de caminhões.

Em 3 de julho de 2021, sem reunião, sem comunicado e sem votação, a dificuldade caiu 27,94% — a maior queda da história da rede. Os blocos voltaram aos dez minutos. As máquinas foram reinstaladas no Texas, no Cazaquistão e no Paraguai ao longo dos meses seguintes, o poder de cálculo voltou a subir, e a dificuldade subiu junto, ajuste após ajuste, sem que nada precisasse ser decidido.

Vale desfazer uma confusão comum de vocabulário. O poder de cálculo da rede, o hashrate, não é medido por ninguém — não há como contar máquinas espalhadas pelo mundo que não se identificam. Ele é estimado ao contrário: sabendo a dificuldade e observando quanto tempo os blocos estão levando, deduz-se quanta força deve estar procurando. Todo gráfico de hashrate que você já viu é uma inferência, não uma contagem.

Por mais tensa que esteja a mola, o escape solta um dente por vez.

Há ainda um detalhe encantador para quem gosta de código. A conta do ajuste, como Satoshi a escreveu, usa o intervalo de 2.015 blocos em vez de 2.016 — um erro de contagem de um. O efeito é minúsculo, os blocos saem em média alguns segundos mais rápido do que deveriam, e ele nunca foi corrigido: consertar mudaria a regra de consenso, e a rede prefere um defeito conhecido e inofensivo a uma mudança desnecessária.

Uma consequência prática vale para quem minera: a receita de um minerador não depende de quanta força ele tem, e sim da fração da força total que ele representa. Comprar o dobro de máquinas num mercado em que todo mundo comprou o dobro não muda nada — e é essa corrida que empurra a mineração para onde a energia é mais barata, como a trilha iniciante descreveu.

Por fim, a dificuldade é o preço de um ataque. Reescrever blocos passados exige refazer o trabalho de todos eles mais rápido do que a rede inteira faz o trabalho novo. Cada ajuste para cima encarece essa conta, e é por isso que a segurança do Bitcoin não é uma propriedade da criptografia apenas: é uma propriedade econômica, atualizada a cada duas semanas.

Você já sabe o que uma transação carrega, como uma moeda é trancada, como se disputa espaço, como um bloco é montado e como o relógio é mantido. Falta a peça que verifica tudo isso do seu lado, num computador comum, sem perguntar nada a ninguém. Na próxima aula, rodar um nó.