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Passphrase: a 13ª palavra e as carteiras ocultas

Uma palavra a mais cria uma carteira inteiramente nova a partir da mesma semente. É a proteção mais poderosa e a mais fácil de perder.

A frase de doze palavras tem um problema que quase ninguém enuncia em voz alta: quem a lê, leva tudo. O papel no cofre, a chapa gravada atrás do quadro, a folha esquecida numa gaveta — qualquer pessoa que ponha os olhos naquelas doze palavras é, a partir daquele instante, a dona do dinheiro. A passphrase existe por causa disso, e ela cobra caro pelo serviço.

O mecanismo é de uma simplicidade quase decepcionante. Na Aula 1, a frase entrava na função PBKDF2 junto com um tempero fixo, a palavra mnemonic. A passphrase é apenas um texto que você acrescenta ali. Qualquer texto. Uma palavra, uma frase, um verso, uma sequência de símbolos. O resultado é uma semente completamente diferente e, portanto, uma carteira inteiramente nova, sem nenhuma relação com a primeira.

Repare no que essa simplicidade implica. Não existe passphrase errada. Não existe conferência, não existe checksum, não existe aviso. Cada texto diferente abre uma carteira legítima, vazia e igualmente válida — e são bilhões delas por semente. Digitar cachorro em vez de Cachorro não produz uma mensagem de erro; produz um saldo zerado, que é a coisa mais assustadora que uma tela de carteira pode mostrar.

Descer o balde com a palavra errada não dá erro. Dá um poço vazio.

Em compensação, o que ela protege, protege muito bem. Um ladrão que encontra as doze palavras encontra uma carteira de verdade, com saldo de verdade, e não tem como saber que existe outra atrás delas. Muita gente usa isso de propósito: deixa uma quantia pequena na carteira das doze palavras e guarda o resto na carteira oculta. A isca é feita para ser encontrada.

A bolsa sobre a mesa existe para ser encontrada.

Vale ser honesto sobre os limites dessa manobra. Contra alguém que roubou um papel, ela funciona. Contra alguém que está na sua frente exigindo o dinheiro, ela depende de acreditarem em você — e se não acreditarem, a situação piora em vez de melhorar. Segurança contra coação não é um problema de criptografia, e nenhum recurso técnico o resolve sozinho.

Há um segundo limite, mais comum e mais esquecido. A passphrase protege o papel; ela não protege o aparelho onde você a digita. Num computador com programa espião, a frase e a passphrase saem juntas pelo mesmo caminho, e a carteira oculta some com a mesma facilidade que a outra. É por isso que ela se digita no aparelho dedicado, nunca no navegador.

A palavra protege o papel guardado, não a sala onde você a escreveu.

E há o risco que mata mais gente do que todos os ladrões somados: esquecer. Em 2011, o programador Stefan Thomas guardou 7.002 bitcoins num disco criptografado e perdeu o papel com a senha. O disco permite dez tentativas antes de apagar o conteúdo para sempre. Ele gastou oito. As duas últimas continuam lá, e o dinheiro também, atrás de uma palavra que ninguém lembra. Uma passphrase esquecida faz exatamente isso, sem contador e sem cerimônia.

Por isso, quem usa passphrase assume três obrigações. A primeira: ela é um segundo backup, e merece o mesmo cuidado do primeiro — anotada, em papel ou metal, num lugar diferente do da frase, porque guardar as duas juntas anula o motivo de existirem separadas. A segunda: restaure a carteira oculta num aparelho limpo antes de mandar dinheiro para lá, e confirme que os endereços batem. A terceira: escreva com caracteres que qualquer teclado produz, porque um acento digitado num aparelho diferente é outra passphrase.

Guardada na cabeça e em lugar nenhum mais, ela é uma aposta contra a sua própria memória daqui a dez anos — e essa aposta já foi perdida por gente muito organizada.

Uma chave só, protegida por uma palavra só, ainda é um ponto único de falha. Existe um arranjo em que nenhuma chave sozinha move nada, e ele troca o risco de perder tudo por um procedimento com mais de uma pessoa. Na próxima aula, o multisig.