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Multisig: quando uma chave não basta

Duas de três, três de cinco. Distribuir a autorização entre chaves troca um ponto único de falha por um procedimento.

Nas igrejas europeias da Idade Média, o dinheiro do dízimo ficava num baú com três fechaduras diferentes. O pároco tinha uma chave, o tesoureiro da paróquia outra, e um representante dos moradores a terceira. Nenhum dos três abria o baú sozinho, e nenhum precisava confiar nos outros dois: o arranjo tornava o roubo silencioso impossível sem tornar o dinheiro inacessível.

Três fechaduras, três chaveiros. Ninguém abre o baú sozinho.

Multisig é esse baú. Em vez de uma saída que exige uma assinatura, cria-se uma saída que exige duas assinaturas entre três chaves possíveis, ou três entre cinco, ou a combinação que o caso pedir. As regras ficam escritas no próprio cadeado da moeda, verificadas por cada nó da rede, sem intermediário e sem contrato assinado em cartório.

A vantagem não é dobrar a segurança. É separar as falhas. Numa carteira comum, uma única coisa ruim acontecendo — o papel queimado, a chave copiada, o aparelho roubado — resolve a partida. Num arranjo de duas entre três, perder uma chave não custa nada, porque as outras duas continuam bastando, e um ladrão que consiga uma chave inteira não consegue mover um satoshi. As duas piores histórias do curso, a perda total e o roubo total, deixam de depender de um objeto só.

O desenho de duas entre três é o mais usado justamente por equilibrar as duas pontas. Uma chave fica com você, outra num lugar geograficamente distante, e a terceira com alguém de confiança ou com um serviço que assina junto sem nunca ter poder de gastar sozinho. Empresas usam o mesmo princípio para exigir duas diretorias em cada pagamento, e famílias o usam para planejar herança sem entregar o dinheiro em vida.

Nada disso é de graça. Uma transação multisig é maior, e maior significa taxa mais alta em todo pagamento que você fizer. A montagem envolve várias carteiras que precisam se entender. E existe uma armadilha específica, responsável por perdas reais: guardar as sementes e esquecer a planta. Para reconstruir uma carteira multisig não bastam as chaves privadas — é preciso saber a política de assinatura e as chaves públicas estendidas de todos os participantes, o que as carteiras chamam de descritor. Quem guarda três frases num cofre e nada mais tem três peças de um cofre que ninguém sabe montar.

As três chaves não bastam. Sem a planta, ninguém remonta o cofre.

Vale distinguir multisig de uma ideia parecida que resolve outro problema. Existe um método, o esquema de Shamir, que corta uma semente em pedaços e exige alguns deles de volta para reconstruí-la. É engenhoso, mas repare no que acontece no fim: os pedaços se juntam num computador só, e naquele instante a semente inteira existe, montada, num lugar só. Multisig nunca faz isso. Cada chave assina onde ela mora, e a chave completa da carteira nunca chega a existir em lugar nenhum.

Juntar os pedaços num lugar só cria o instante em que tudo fica exposto.

E existe o risco de que a complexidade vire a própria ameaça. Um arranjo que você entende, testou e sabe explicar em uma página protege o seu dinheiro. Um arranjo com cinco chaves espalhadas por três países, montado numa tarde e nunca restaurado nem uma vez, é uma forma elaborada de perder tudo com muito trabalho. A pergunta honesta não é quantas chaves, é se alguém — inclusive você daqui a dez anos — conseguiria executar a recuperação lendo apenas o que está escrito.

Por isso a regra prática é chata e boa: multisig começa a valer a pena quando o valor guardado justifica o procedimento, e só depois de uma restauração de teste feita do começo ao fim, com dinheiro pequeno, antes de qualquer coisa séria entrar.

As chaves, as palavras, a passphrase e o descritor têm todos o mesmo destino final: virar uma anotação que precisa sobreviver a incêndios, mudanças, esquecimentos e ao seu próprio funeral. Na próxima aula, o backup que dura.