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Backup que sobrevive a você: metal, redundância e herança

Papel queima, nuvem vaza e memória falha. O backup certo é um plano, não um objeto.

A anotação que você fez hoje precisa continuar legível depois de uma mudança de casa, de uma enchente, de um incêndio, de duas décadas de umidade e do seu próprio velório. Nenhuma dessas coisas é hipótese exótica: são as quatro maneiras mais comuns de um backup falhar, e três delas acontecem enquanto o dono ainda está vivo para ver.

O papel perde para todas. A tinta de caneta esferográfica desbota, a de impressora se dissolve na água, e a folha em si pega fogo por volta dos 230 graus — enquanto o incêndio de uma casa comum passa dos 800. Não é que papel seja inútil: ele é excelente para escrever hoje e péssimo para durar trinta anos sem cuidado.

A enchente decide qual dos dois backups você ainda tem.

Por isso existe o backup em metal. São chapas de aço inoxidável ou de titânio onde as palavras são gravadas, puncionadas ou montadas com letras avulsas. O aço inoxidável só derrete perto dos 1.400 graus e o titânio acima dos 1.660 — os dois sobrevivem confortavelmente ao pior incêndio doméstico. Em 2018 e 2019, o desenvolvedor Jameson Lopp comprou dezenas desses produtos e os submeteu a maçarico, prensa hidráulica e ácido, publicando quais aguentaram e quais viraram poça. Vale ler antes de comprar: a diferença entre modelos é enorme.

A chapa sai do fogo com as marcas todas no lugar.

Metal resolve o fogo e a água, e não resolve o resto. Contra o roubo, a mudança e o simples esquecimento, o que funciona é redundância geográfica: pelo menos duas cópias, em dois lugares que não podem ser destruídos pelo mesmo acidente nem visitados pela mesma pessoa numa tarde. A trilha iniciante já insistiu nisso, e a razão continua a mesma — só que agora você também tem uma passphrase e, talvez, um descritor de multisig para guardar, e cada peça precisa da sua própria conta.

Duas tentações merecem uma recusa explícita. A primeira é a fotografia, que a trilha iniciante já condenou por um motivo que vale repetir: o telefone manda a imagem para a nuvem antes de você fechar a câmera. A segunda é o gerenciador de senhas, que é excelente e resolve outro problema — ele protege contra quem adivinha, não contra quem já está dentro da máquina onde tudo fica aberto ao mesmo tempo.

A conferência é a parte que quase todo mundo pula. Restaurar significa pegar a anotação, digitá-la num aparelho limpo e ver os endereços certos aparecerem — não olhar o papel e achar que está tudo bem. Faça isso uma vez ao criar a carteira e uma vez a cada mudança grande, com o aparelho desconectado. É o único momento em que você descobre um erro enquanto ele ainda tem conserto.

Falta o problema que nenhum metal resolve: a sua morte. Um herdeiro precisa de três coisas, nessa ordem. Precisa saber que a carteira existe, porque ninguém procura o que não sabe que há. Precisa saber onde estão as instruções. E precisa de instruções que ele consiga executar sem saber nada de Bitcoin — nome do aplicativo, o que é a frase, o que é a passphrase, quantas chaves são necessárias, em que ordem.

O inventário vira documento público. O que está escrito nele deixa de ser segredo.

E há uma armadilha jurídica que custa caro. Em muitos lugares o inventário se torna documento acessível a terceiros, então as palavras nunca vão dentro do testamento. O testamento diz que existe, e diz onde procurar; o segredo mora em outro lugar, num envelope lacrado com alguém de confiança, num cofre bancário, numa chave de um multisig entregue a quem herda.

Quem quiser ir além pode montar a herança na própria rede: o Bitcoin permite escrever uma trava de tempo, uma condição que só se torna gastável depois de uma data. É um mecanismo do próprio script das moedas, e é o assunto do próximo módulo — junto com tudo mais que uma transação carrega por dentro. Depois de duas trilhas cuidando das suas chaves, é hora de olhar a rede que as obedece.