Abra a carteira e você verá um saldo. Esse número não existe na rede. Nenhum lugar da blockchain guarda quanto você tem: o que existe são pedaços de dinheiro, cada um com um dono e um valor próprio, e o saldo é uma soma que o seu aplicativo faz antes de desenhar a tela.
Cada pedaço se chama UTXO, sigla para saída de transação não gasta. Quando alguém te paga, a transação cria uma saída com um valor e um cadeado que só a sua chave abre. Enquanto ninguém a gastar, ela fica lá, inteira, esperando. A rede não sabe somar as suas: ela apenas sabe, de cada uma, se já foi gasta ou não.

Daí vem a regra que explica quase tudo o que se segue: um UTXO se gasta inteiro. Não dá para usar metade, como não dá para pagar dez com metade de uma nota de vinte. Se você tem um pedaço de 0,05 e precisa pagar 0,03, a transação consome os 0,05 completos e cria duas saídas novas: uma de 0,03 para quem recebe e outra, com o que sobrou, de volta para um endereço seu. É o troco que a trilha iniciante prometeu explicar por dentro, e ele não é uma cortesia do programa: é a única forma de a conta fechar.
Cada transação, portanto, é uma lista de entradas e uma lista de saídas. As entradas apontam para saídas anteriores, dizendo de onde o dinheiro vem, e cada uma vem acompanhada da assinatura que prova o direito de gastá-la. As saídas dizem para onde ele vai. Os valores são sempre números inteiros de satoshis — a centésima milionésima parte de um bitcoin — porque um número inteiro nunca arredonda errado.
E aqui está o detalhe que mais surpreende quem vê pela primeira vez: a taxa não é escrita em lugar nenhum. Não existe um campo taxa numa transação. O que existe é a diferença: se as entradas somam mais do que as saídas, o que sobrou fica para o minerador que incluir a transação no bloco.

Essa escolha de projeto é elegante e implacável. Em 10 de fevereiro de 2023, a empresa americana Paxos transmitiu uma transação que movia o equivalente a poucos dólares e pagou 19,8 bitcoins de taxa — meio milhão de dólares na época. Ninguém digitou aquele valor. Alguém montou as entradas e esqueceu a saída de troco, e a rede fez exatamente o que a regra manda: o que não foi para uma saída foi para o minerador. Uma carteira comum protege você disso com verificações; uma transação montada à mão, não.
Com o modelo na cabeça, dois problemas do dia a dia ficam óbvios. O primeiro é a poeira: pedaços tão pequenos que gastá-los custa mais em taxa do que eles valem. Eles ficam parados na carteira para sempre, e existem até como técnica de rastreamento — mandar poeira para milhares de endereços e observar quem a gasta junto com o resto.

O segundo é a consolidação. Quem recebe muitos pagamentos pequenos acumula dezenas de UTXOs, e cada um deles ocupa espaço na hora de gastar — uma transação com trinta entradas é trinta vezes mais cara que uma com uma. Consolidar é juntá-los numa transação só, feita num momento de taxa baixa, para pagar barato hoje o que sairia caro amanhã. Em troca, consolidar revela publicamente que aqueles pedaços todos pertencem à mesma pessoa, o que é assunto da aula sobre privacidade, mais adiante no curso.
É por isso que um nó completo não guarda saldos de ninguém: ele guarda o conjunto de todas as saídas ainda não gastas da rede inteira, uns poucos gigabytes que respondem a única pergunta que importa na hora de validar — esse pedaço ainda existe?
Falta abrir o cadeado. Cada saída carrega um pequeno programa que define a condição para gastá-la, escrito numa linguagem própria. Na próxima aula, o Script.