Duas carteiras honestas, a mesma semente de doze palavras, saldos diferentes na tela. Nenhuma das duas está com defeito e nenhuma está mentindo. Elas estão olhando para ramos diferentes da mesma árvore, e o número que decide qual ramo é o primeiro do caminho de derivação — o tal do propósito, que a aula anterior deixou em aberto.
São quatro propósitos em uso, e cada um corresponde a um formato de endereço. O 44 é o mais antigo, proposto em 2014 por Marek Palatinus, e gera os endereços que começam com 1. O 49 gera os que começam com 3. O 84 gera os bc1q. O 86 gera os bc1p, do Taproot. Quatro números, quatro famílias de endereços, todas nascidas da mesma frase e nenhuma delas conversando com as outras.

A ordem em que apareceram conta a história do próprio Bitcoin. O 44 é a forma original: chave pública, dois hashes, um endereço. Funciona desde 2009 e continua funcionando, mas gasta mais espaço no bloco — e espaço em bloco é o que a taxa paga, como a trilha iniciante mostrou. Uma entrada nesse formato ocupa cerca de duas vezes o que ocupa uma entrada moderna, e essa diferença aparece integralmente na taxa que você paga.
O 84 é o formato que resolveu isso, em 2017, quando o SegWit entrou em operação. A assinatura deixou de contar como conta o resto da transação, e uma entrada que custava cento e quarenta e oito unidades de peso passou a custar por volta de sessenta e oito. O endereço ficou mais comprido de ler, todo em minúsculas, começando com bc1q — e mais barato de gastar.
Entre um e outro existe o 49, que é uma peça de transição e merece ser entendida como tal. Em 2017, uma carteira antiga não sabia enviar dinheiro para um endereço bc1q; simplesmente recusava. O truque do 49 foi embrulhar o endereço novo dentro de um formato velho, o que começa com 3, que qualquer carteira já aceitava desde 2012. Quem recebia pagava barato para gastar depois, e quem pagava não precisava atualizar nada.

O 86 é o mais recente, de 2021, e usa o Taproot. Ele economiza um pouco mais e, principalmente, faz com que gastos simples e contratos complicados fiquem indistinguíveis na blockchain — o que é assunto de outro módulo. Hoje as quatro famílias convivem, e é por isso que algumas carteiras mostram quatro contas na mesma tela: não são quatro carteiras, é a mesma semente vista por quatro caminhos.
Daí vem o diagnóstico do saldo que sumiu, que é quase sempre a mesma história. Você criou a carteira num aplicativo que usava 84, recebeu ali, e depois restaurou as doze palavras num aplicativo que assume 44 por padrão. As moedas continuam exatamente onde estavam, visíveis para o mundo inteiro na blockchain, sob endereços que a segunda carteira nunca calculou porque estava procurando no ramo ao lado.

O conserto é procedimento, não sorte. Anote junto com a semente qual carteira a criou e qual caminho ela usava — uma linha no mesmo papel resolve o problema antes de ele existir. Se já é tarde, restaure numa carteira que ofereça a escolha do caminho e teste os quatro, ou use o xpub da conta num explorador de blocos para ver o histórico sem digitar chave nenhuma. E lembre do limite de vinte endereços sem movimento da aula anterior: às vezes o ramo é o certo e a varredura é que parou cedo demais.
Um aviso que vale mais que o resto da aula: essa investigação nunca se faz colando as doze palavras num site que promete encontrar o saldo. O site que encontra o seu dinheiro é o mesmo que o leva, e a trilha iniciante já descreveu esse golpe em detalhe. Ferramentas de recuperação sérias rodam na sua máquina, de preferência desligada da internet.
Existe ainda uma forma de a mesma semente gerar uma carteira que nenhum desses quatro caminhos encontra, e ela não é acidente — é proteção deliberada, escolhida por quem a usa. Na próxima aula, a passphrase, a décima terceira palavra.