Você apertou enviar há quatro horas e o dinheiro não chegou. Não existe ninguém processando o seu pedido, não existe atendimento e, principalmente, não existe fila. O que existe é um leilão por espaço, e a sua transação simplesmente não deu lance suficiente.
Cada nó da rede guarda na memória as transações válidas que ainda não entraram em bloco. Esse depósito se chama mempool, e é importante entender que ele é local: o seu nó tem o dele, o meu tem o meu, e os dois quase nunca são idênticos. Não existe uma lista oficial de espera em lugar nenhum do mundo.
Um bloco cabe, na prática, em pouco mais de um milhão de unidades de tamanho, o que dá algo entre duas e três mil transações. Como o espaço é fixo e a demanda não é, o minerador que monta o próximo bloco escolhe as transações que pagam mais por unidade de espaço ocupado. É por isso que a taxa se mede em satoshis por vByte, e não em reais nem em porcentagem.
Daí sai o fato mais contraintuitivo do assunto: a taxa não depende do valor enviado. Mandar mil bitcoins numa transação enxuta pode custar menos do que mandar meio real numa transação com trinta entradas, porque o que se paga é o espaço ocupado no bloco, exatamente como um frete cobra pelo volume da carga e não pelo preço dela.

O preço desse espaço varia muito. Em dezembro de 2017, com a rede congestionada, a taxa média de uma transação passou de cinquenta dólares. No bloco 840.000, minerado em 20 de abril de 2024, os mineradores recolheram mais de 37 bitcoins só em taxas — um recorde, causado por uma corrida para gravar dados naquele bloco específico. Em noites tranquilas, a mesma transação custa poucos centavos. Sua carteira consulta os blocos recentes e o tamanho da mempool para sugerir um valor, e ela acerta na maior parte das vezes.
Quando ela erra, existem duas saídas. A primeira é substituir a transação por outra igual, com taxa maior. O mecanismo se chama RBF, de replace-by-fee, e funciona porque a transação parada ainda não é definitiva: enquanto estiver apenas na mempool, uma versão nova que gaste as mesmas entradas e pague mais é aceita no lugar da antiga.

A segunda saída serve quando a substituição não é possível — porque a transação foi montada sem essa permissão, ou porque quem está esperando é você, do lado de quem recebe. Chama-se CPFP, filho paga pelo pai. Você gasta a saída ainda não confirmada numa segunda transação, pagando uma taxa alta nela. Como a segunda depende da primeira, o minerador só pode ganhar aquela taxa gorda se incluir as duas juntas, e é o que ele faz.

E se você não fizer nada? Nada de ruim acontece. As moedas continuam suas, porque uma transação não confirmada não moveu nada — ela é apenas uma proposta. Depois de um tempo, por padrão duas semanas, os nós descartam a proposta da memória por falta de espaço, e é como se ela nunca tivesse sido feita. Os pedaços que ela ia gastar continuam intactos, disponíveis para uma transação nova.
Só existe uma forma de perder dinheiro nessa história, e ela é a de sempre: aceitar como pago algo que ainda não foi confirmado. Uma transação na mempool pode ser substituída, esquecida ou nunca minerada. Confirmação é profundidade, e a trilha iniciante já explicou por quê.
Falta ver o que acontece do lado de lá, quando o minerador finalmente escolhe as transações e monta o bloco. São oitenta bytes de cabeçalho que resumem tudo, e um número que ele varia bilhões de vezes por segundo. Na próxima aula, o bloco por dentro.