Iniciante Aula 6 4 min de leitura

Fraudes, perdas e erros irreversíveis: o manual de sobrevivência

Não há estorno, não há suporte e não há “esqueci minha senha”. As cinco formas mais comuns de perder bitcoin — e o hábito que impede cada uma.

A imagem que quase todo mundo tem de um roubo de bitcoin é a do invasor genial quebrando um código. Ela nunca aconteceu. A criptografia da rede não foi rompida uma única vez desde 2009. O que acontece, todos os dias, é bem mais simples: alguém convence uma pessoa a entregar o que ela tem, ou a pessoa perde sozinha o que guardou.

As perdas cabem em cinco formas. Cada uma tem um hábito que a impede, e os cinco hábitos cabem numa página.

A primeira é entregar a semente. Ninguém a arranca de você: você digita. O pedido chega com o rosto de quem ajuda — um suporte que liga porque detectou movimentação suspeita, um site de restauração que aparece antes do verdadeiro no buscador, um aplicativo baixado da loja oficial que era falso. Em fevereiro de 2021, um morador da Filadélfia perdeu 17,1 bitcoins num aplicativo que se passava pela fabricante Trezor e ficou semanas à venda na App Store da Apple. O hábito: as doze palavras se digitam no aplicativo que você abriu, nunca no que veio até você.

O suporte de verdade nunca liga, e nunca precisa das suas palavras.

A segunda não tem culpado. É perder a anotação: o incêndio, a mudança, a faxina, a gaveta que alguém esvaziou sem perguntar. Papel guardado num lugar só está a um acidente doméstico de sumir. O hábito: duas cópias em dois lugares diferentes, e uma restauração de teste antes de precisar dela. Um backup que nunca foi restaurado não é um backup, é uma esperança.

Uma cópia só não é backup. Duas, em dois lugares, são.

A terceira não parece uma perda de bitcoin, e é a maior de todas em dinheiro: entregar o dinheiro a quem promete rendimento. Em agosto de 2021 a Polícia Federal prendeu Glaidson Acácio dos Santos, dono da GAS Consultoria, de Cabo Frio, que prometia 10% ao mês e reuniu dezenas de milhares de clientes. Não havia operação alguma por trás: o rendimento de quem estava dentro era o depósito de quem acabara de entrar. O hábito: rendimento alto, fixo e garantido não existe. Quem paga o seu 10% é a pessoa da fila atrás de você, até a fila acabar.

A quarta é a promessa de multiplicar. Em 15 de julho de 2020, cerca de 130 contas verificadas do Twitter — Barack Obama, Elon Musk, Joe Biden, Apple — publicaram a mesma oferta ao mesmo tempo: mande bitcoin para este endereço e receba o dobro de volta. Em poucas horas o endereço tinha recolhido mais de 100 mil dólares. O hábito é aritmético: quem tem dinheiro para devolver em dobro não precisa do seu, e nenhuma transação em bitcoin volta sozinha.

A promessa de devolver o dobro é mais velha que o dinheiro. Em 2020 ela foi feita pelas contas mais famosas do mundo, ao mesmo tempo.

A quinta não tem golpista, nem pressa, nem erro. É morrer sem deixar o caminho. Se ninguém sabe que a carteira existe, ou sabe e não faz ideia de como chegar até ela, as moedas ficam no livro-caixa para sempre, visíveis para o mundo inteiro e fora do alcance de todos, como o disco rígido da Aula 1. O hábito: alguém de confiança precisa saber que aquilo existe e onde estão as instruções — não as palavras, as instruções. A trilha intermediária tem uma aula inteira sobre esse plano.

O que ninguém sabe que existe não é herdado.

Quatro dessas cinco têm um traço em comum, e ele é o alarme mais confiável que existe: pressa. O golpe precisa que você decida agora, antes de contar a alguém, antes de conferir, antes de dormir. A oferta expira em dez minutos, a conta será bloqueada hoje, o preço é só até o fim do dia. Nenhuma decisão de verdade piora se você esperar até amanhã de manhã, e nenhuma instituição séria trabalha com esse relógio.

O que torna esses erros diferentes de todos os outros é o que fecha esta trilha: não há estorno, não há suporte, não há autoridade a quem recorrer. A mesma propriedade que impede um governo de confiscar o seu dinheiro impede qualquer um de devolvê-lo. Liberdade e responsabilidade são a mesma peça vista de dois lados.

Você já sabe usar sem se machucar. Falta saber por que funciona — o que é, exatamente, uma chave privada, como um número vira endereço e por que ninguém adivinha o seu. É o assunto do próximo módulo, e o começo da trilha intermediária.